Caderno: Brasil
Tipo: ensaio
Semana: 27
Data: domingo, 5 de julho de 2026

O que a Copa fez com a camisa verde e amarela em 2026

Por: Marcus Andrade
Depois dos anos em que a bandeira foi partido, a Copa devolveu o verde e amarelo? Leitura dos símbolos no país pós-eliminação.

Análise

No dia da eliminação, 3 de julho, uma cena se repetiu em bares de Recife, Salvador e da zona norte do Rio: homens tiraram a camisa verde e amarela ainda no segundo tempo e a deixaram sobre o encosto da cadeira como quem larga um peso. Não houve raiva imediata. Houve uma espécie de cansaço combinado com alívio — como se a derrota para a Argentina nas quartas de final devolvesse a cada um o direito de ser apenas torcedor, sem ter que negociar o que a camisa significava antes de entrar no bar.

Esse gesto pequeno diz algo que os editoriais não disseram. Durante a Copa de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, a camisa da seleção foi usada por milhões de brasileiros que, nos dois anos anteriores, a tinham guardado na gaveta por associação com a pauta bolsonarista. A Copa devolveu o verde e amarelo? A resposta honesta é: parcialmente, e de modo desigual. O que houve em 2026 foi uma negociação tensa de sentidos, e ela não terminou com o apito final.

Durante quatro anos, entre 2022 e 2026, o verde e amarelo funcionou como sinal de tribo. Quem usava mandava uma mensagem antes de abrir a boca. Homens negros de periferia, que sempre foram os maiores consumidores de camisas da seleção — e os maiores fornecedores de jogadores para ela —, foram colocados numa posição absurda: torcer por um time majoritariamente negro usando uma cor que havia sido apropriada por um movimento que os excluía. Vinicius Jr., alvo de racismo em campo europeu durante todo esse ciclo, entrou na Copa carregando esse paradoxo no nome impresso nas costas.

O torneio começou em 11 de junho. A adesão foi cautelosa nas primeiras semanas. Pesquisa do Locomotiva divulgada em 18 de junho mostrou que 61% dos brasileiros que se declararam pretos ou pardos afirmaram torcer pela seleção com "orgulho", contra 54% em novembro de 2022. A diferença de sete pontos é modesta, mas real. A Copa estava reconstituindo, lentamente, um vínculo que a política havia corroído.

O que a Copa não fez foi apagar a disputa simbólica. Nas redes, a cada gol do Brasil, grupos ligados ao bolsonarismo voltavam a envergar a bandeira como propriedade. A resposta veio dos mesmos espaços digitais: imagens com Vinicius, Endrick e Militão sobrepunham o verde e amarelo à pauta antirracista. Não era consenso. Era conflito. E conflito é exatamente o que acontece quando um símbolo é recontestado, não quando ele é recuperado de forma limpa.

Depois da eliminação, a camisa voltou à gaveta de muitos. Mas não da mesma forma. O verde e amarelo de julho de 2026 é um objeto mais complexo do que era em 2018. Ele carrega agora a memória da disputa. Homens negros que o vestiram durante a Copa sabem o que custou vestir e sabem o que custou tirar. Isso não é derrota simbólica nem vitória. É o que fica quando um país passa quatro anos brigando pelo próprio símbolo e nenhum lado ganha de forma limpa.

Contexto

Copa 2026 e seleção: O Brasil foi eliminado pela Argentina nas quartas de final em 3 de julho, em Dallas (EUA). A seleção tinha 14 jogadores negros ou pardos no elenco de 26. Vinicius Jr. marcou três gols no torneio. A cobertura esportiva brasileira dedicou mais espaço ao desempenho tático do que ao contexto racial do plantel.

Disputa simbólica da bandeira: Pesquisa Datafolha de outubro de 2022 registrava que 38% dos brasileiros evitavam usar verde e amarelo por associação política. Em junho de 2026, esse índice caiu para 24%. Analistas do Iuperj apontam que o efeito tende a ser temporário e dependente de novas disputas eleitorais.

Racismo e futebol: Entre 2022 e 2025, Vinicius Jr. registrou formalmente 27 ocorrências de racismo em campos europeus, segundo a ONG Kick It Out. Em nenhum desses casos houve suspensão de temporada para os clubes envolvidos. A CBF instaurou em 2025 o protocolo anti-racismo nos estádios, aplicado em 14 partidas das eliminatórias.