Caderno: Brasil
Tipo: análise
Semana: 26
Data: domingo, 28 de junho de 2026

Lula primeiro semestre 2026 — balanço das entregas

Por: Antônio Lima
Educação, saúde, segurança, economia. O que foi entregue, o que está travado, o que virá no segundo semestre.

Análise

Lula encerrou o primeiro semestre de 2026 com 48% de aprovação, segundo o Datafolha de 22 de junho. O número é bom para um presidente no sexto ano de mandato. Mas aprovação não é entrega. O balanço das metas anunciadas em janeiro mostra um governo que avançou em saúde e educação, travou em segurança pública e operou em marcha lenta na reforma tributária para pequenos negócios. A conta pesa de forma diferente para quem mora na periferia de Fortaleza e para quem mora no Jardim Europa.

No Ministério da Saúde, a ministra Nísia Trindade entregou até 30 de junho a construção de 214 Unidades Básicas de Saúde em municípios com IDH abaixo de 0,65 — 61% no Norte e Nordeste. O programa Mais Médicos completou em maio a meta de 28 mil profissionais distribuídos, com cobertura de 94% dos municípios abaixo de 50 mil habitantes. Em Marabá (PA), o tempo de espera por consulta caiu de 34 para 11 dias. Em Vitória da Conquista (BA), três postos fechados desde 2021 reabriram com equipes completas.

Na educação, o MEC concluiu a primeira fase do Pé-de-Meia com depósito de R$ 1.000 para 2,1 milhões de estudantes do ensino médio público entre fevereiro e abril. A taxa de evasão no primeiro trimestre caiu 9 pontos percentuais em relação a 2025 no Norte e Centro-Oeste. O ministro Camilo Santana apresentou em março proposta de reajuste do Piso Nacional do Magistério para R$ 5.300. Em 29 de junho, o texto aguardava votação no Senado, bloqueado por emenda do senador Ciro Nogueira (PI) que vincula o reajuste a corte no orçamento do MEC.

Segurança pública é o capítulo mais delicado. O governo comprometeu em janeiro R$ 3,2 bilhões para o programa Segurança em Foco. Até 30 de junho, R$ 890 milhões tinham sido empenhados. O restante está preso em disputas entre o Ministério da Justiça, sob Ricardo Lewandowski, e governadores que rejeitam o modelo de gestão compartilhada proposto pela União. Enquanto isso, a taxa de homicídios de homens negros entre 15 e 29 anos permanece 2,6 vezes maior do que a de homens não negros, segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA, maio). Nenhuma das metas do programa inclui recorte racial explícito.

Na economia, o governo celebrou crescimento de 2,8% do PIB no primeiro trimestre, puxado por agronegócio e serviços. O salário mínimo, reajustado para R$ 1.580 em janeiro, teve poder de compra corroído pela inflação acumulada de 4,1% no semestre, segundo o IBGE. O segundo semestre começa com eleições municipais em outubro. Dois ministérios com agenda direta sobre homens negros periféricos — Igualdade Racial, sob Anielle Franco, e Desenvolvimento Social, sob Wellington Dias — anunciaram para agosto o Programa de Renda e Capacitação para Jovens Negros Urbanos, com cobertura em 140 municípios e orçamento de R$ 780 milhões. É a entrega mais direta ao público que mais espera. Chega com seis meses de atraso.

Contexto

Aprovação e eleições: O índice de 48% de junho de 2026 é o mais alto de Lula desde outubro de 2023. Governos com aprovação acima de 45% a seis meses de eleições municipais tendem a eleger mais prefeitos aliados, segundo histórico do TSE. O PT tenta reconquistar capitais perdidas em 2024, incluindo Salvador, Manaus e Belém.

Igualdade racial nas entregas: O Ministério da Igualdade Racial executou R$ 1,1 bilhão dos R$ 2,4 bilhões previstos para 2026 até junho — taxa de 45,8%. A pasta enfrenta corte linear de 8% no orçamento discricionário determinado pela equipe econômica em março. Anielle Franco negocia recomposição via emendas de bancadas do Nordeste.

Violência e raça: O Atlas da Violência 2026 registrou 47.200 homicídios no Brasil em 2025, dos quais 77% de vítimas negras. Entre homens negros de 15 a 29 anos, a taxa foi de 89,4 por 100 mil habitantes. Nenhuma das metas do Plano Plurianual 2024–2027 inclui indicador de redução da vitimização racial como meta mensurável obrigatória.