Caderno: Brasil
Tipo: retrato
Semana: 25
Data: domingo, 21 de junho de 2026

São João em três cidades — Campina, Caruaru, Mossoró

Por: João Batista Baiano
A maior festa popular do Nordeste. Economia, música, tradição afro-brasileira. Retrato fotográfico e textual.

Análise

Em Campina Grande, o forró começa antes do anoitecer. Na Avenida Floriano Peixoto, Edson, 52, dono de barraca de milho verde, abriu o fogão às quatro da tarde como faz desde os dezessete anos. Não há nada de folclórico nisso: é trabalho, é junho, é a única semana em que ele fatura o equivalente a dois meses comuns. O São João do Nordeste não é só festa. É a coluna vertebral de uma economia informal que sustenta cidades inteiras e que, décadas depois de virar produto turístico, ainda pulsa pelo que sempre foi: celebração coletiva com raízes na religiosidade, na fartura do campo e na musicalidade negra e indígena do interior.

Caruaru recebeu em junho um público estimado em 1,3 milhão de pessoas ao longo das quatro semanas. O Alto do Moura ficou aberto até meia-noite com iluminação nova paga pela prefeitura. Lá, Zé Pequeno, 67, escultor que aprendeu com Mestre Vitalino, vendia peças entre oitenta e trezentos reais. O fluxo de visitantes de São Paulo, Brasília e do exterior cresceu 18% em relação a 2025, segundo a Empetur. Mas o dinheiro não circula de forma homogênea: a maior fatia vai para redes hoteleiras e organizadores de pacotes, enquanto o artesão e o barraqueiro absorvem o que sobra do escoamento informal.

Mossoró tem narrativa própria dentro do ciclo junino. O Mossoró Cidade Junina incorporou em 2026 uma programação de circo e teatro de rua que ocupa bairros afastados do centro, como Abolição IV e Bom Jardim. Ali, grupos como o Coletivo Baraúna encenaram histórias sobre a resistência quilombola do semiárido. Raça e território entram na festa não como pauta, mas como narrativa viva que os roteiros turísticos não conseguem empacotar.

O forró eletrônico domina os palcos principais, com cachês de até R$ 800 mil por apresentação. Nas calçadas e nos salões comunitários, o xote e o baião resistem tocados por trios de sanfona, zabumba e triângulo. A divisão não é acidental: o palco grande é para quem pode pagar ingresso premium; o forró de chão é para quem mora a quinze quarteirões do centro. Homens negros do interior tocam nesses espaços há gerações. Alguns têm nome regional, nenhum tem contrato com gravadora.

A tradição afro-brasileira no São João é frequentemente apagada do roteiro oficial. A quadrilha tem origem nos salões europeus do século XIX mas foi completamente reinventada pelas comunidades negras e mestiças do interior nordestino. O figurino dos casais de quadrilha junina de Campina Grande mistura renda renascença com turbantes e estampas africanas. Nos ensaios — que começam em março — meninos negros de doze, treze anos aprendem coreografia, hierarquia e disciplina coletiva de um modo que poucas escolas da periferia conseguiram sistematizar.

O São João de 2026 faturou, nas três cidades, R$ 2,1 bilhões segundo a Fecomércio-NE. Desse total, pouco mais de 12% chegou à cadeia de pequenos produtores: bordadeiras, ceramistas, músicos de beira de praça. A festa existe, é real, é grande. O que está errado é a distribuição. E essa conta sobra mais pesada para quem abriu o fogão às quatro da tarde e não tem logo de patrocinador na camisa.

Contexto

Economia junina: A Confederação Nacional do Comércio estimou em R$ 6,4 bilhões o impacto do ciclo junino em todo o Nordeste em 2026. Campina Grande e Caruaru respondem juntas por cerca de 33% desse total. O setor de alimentação ambulante emprega aproximadamente 48 mil pessoas só na Paraíba durante o mês de junho.

Música e raça: Luiz Gonzaga, de Exu (PE), popularizou o baião nas rádios nacionais nos anos 1940 após décadas de rejeição pelo mercado do Sudeste. Em 2026, das dez músicas juninas mais tocadas nas rádios nordestinas, oito eram de artistas negros; apenas duas tinham contrato com selos independentes.

Quadrilha junina: O Brasil tem mais de 3.200 grupos cadastrados na Confederação Brasileira de Quadrilhas Juninas, 71% no Nordeste. Em Campina Grande, o Campeonato mobiliza 94 grupos e movimenta R$ 12 milhões entre março e junho — um dos raros circuitos culturais com liderança majoritariamente negra e jovem no interior.