Análise
O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou em maio de 2026 o balanço do primeiro semestre: 312 mortes em operações policiais entre janeiro e maio, ante 287 no mesmo período de 2025 — alta de 8,7%. O secretário de Segurança anunciou os números como "resultado do combate ao crime". Nenhum jornal da cidade questionou o método de contagem.
O ISP chama de "autos de resistência" os casos em que o agente alega legítima defesa. No Rio de 2026, 89% das mortes em operação são registradas nessa categoria. O problema é metodológico e político ao mesmo tempo: quando a polícia classifica a própria violência, o dado não descreve a realidade — ele a oculta. O Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura, com acesso a laudos do IML entre janeiro e abril, identificou 41 corpos com perfurações na região dorsal — mortos pelas costas, o que é incompatível com confronto.
As operações do semestre se concentraram em seis complexos: Alemão, Maré, Penha, Muzema, Manguinhos e Costa Barros. Em todos eles, mais de 82% da população é negra segundo o Censo de 2022. Em todos eles, a taxa de mortes em operação por cem mil habitantes supera 40 — índice comparável ao de países em guerra. No Complexo da Penha, entre fevereiro e março, quatro crianças morreram durante operações. A Secretaria não abriu inquérito em nenhum dos casos.
As apreensões de drogas cresceram 14% no semestre, dado que a Secretaria usa para justificar o modelo. Mas o tráfico não recuou: a Fiocruz, em relatório de abril de 2026, identificou 23 novas bocas de fumo nos mesmos territórios entre dezembro e março. Apreender entorpecentes sem desmontar a estrutura financeira e territorial do tráfico é uma política de Sísifo — e quem paga o preço são os moradores, não os acionistas da cadeia.
No plano federal, o Ministério da Justiça propôs em março o Programa Nacional de Redução da Letalidade Policial, com dotação de R$ 480 milhões para câmeras corporais, formação e perícia independente. O Congresso travou a votação em comissão desde abril. Enquanto isso, o Governador do Rio manteve o modelo operacional que o STF já questionou duas vezes — em 2020, no julgamento da ADPF das Favelas, e em 2023, na liminar sobre operações na Maré. O Estado descumpre decisões judiciais e o governo federal não tem mecanismo para forçar a execução.
Marcus, supervisor de segurança em Acari, 38 anos, descreveu a semana da operação no seu bairro: "A escola fechou segunda e terça. Meu filho de 11 anos ficou dentro de casa dois dias. O boletim deles vai dizer que foi operação bem-sucedida." O que os números do ISP não medem é esse custo difuso — as aulas perdidas, os postos de saúde que não abriram, as micro-economias de bairro paralisadas por helicóptero e fuzil. Esse custo tem endereço, cor e CEP.
Contexto
Dados do ISP (jan–mai 2026): 312 mortes em operações policiais; 89% classificadas como auto de resistência. Apreensões de drogas: +14% em relação ao mesmo período de 2025. Apreensões de armas: +6%. O número de feridos em operações — civis e agentes — não é discriminado nos relatórios públicos do instituto.
Perfil das vítimas: Dos 312 mortos, 94% eram do sexo masculino; 87% negros (pretos e pardos); idade média de 23 anos, segundo levantamento do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF com base nos boletins de ocorrência obtidos via LAI. A territorialidade é consistente: 78% residiam no próprio complexo onde a operação ocorreu.
Contexto legal: A ADPF 635 ("ADPF das Favelas"), julgada pelo STF em 2020, impõe restrições a operações durante a pandemia e exige plano de redução da letalidade. O estado do Rio apresentou três versões do plano; nenhuma foi homologada pela Corte. O descumprimento acumula multas que até maio de 2026 somam R$ 12 milhões — não pagas.