Caderno: Brasil
Tipo: retrato
Semana: 21
Data: domingo, 24 de maio de 2026

Mães negras brasileiras — cinco retratos do país

Por: João Batista Baiano
São Luís, Salvador, Rio, São Paulo, Porto Alegre. A maternidade no país que ainda mata filho negro na esquina.

Análise

São Luís, segunda-feira de manhã. Vera sai de casa às cinco e vinte porque o primeiro ônibus para o hospital passa às cinco e quarenta e seis no ponto do Coroadinho. Dois filhos — um de oito, um de quatro. O de oito já sabe aquecer o leite. O de quatro chora quando ela fecha a porta. No Dia das Mães, ela trabalha. Plantão dobrado, R$ 180 a mais no contracheque. Ela vai comprar tênis para o mais velho.

Em Salvador, Conceição — Ceiça para a família — vende acarajé na Barra desde as quatro da tarde. Cinquenta e um anos, dois netos que ajuda a criar enquanto a filha faz o técnico de contabilidade no turno da noite. Ceiça aprendeu a receita com a mãe, que aprendeu com a avó, filha de escravizadas libertas no Recôncavo. A cadeia afetiva tem mais de um século. No domingo do Dia das Mães, ela não fecha o tabuleiro: quem serve o jantar das famílias não janta com a própria família.

No Rio, em Manguinhos, Dulce tem quarenta e sete anos e um filho de vinte e dois que entrou em engenharia na UFRJ pelas cotas. Ela limpa três apartamentos por semana em Ipanema. O filho estuda à noite. Dulce guarda no bolso do avental a foto da matrícula, ele de camisa branca. Ela não diz que tem medo toda vez que ele sai porque isso não resolve. Mas tem. Manguinhos registrou quatro mortes por bala perdida no primeiro trimestre de 2026. Nenhuma foi o filho. Ainda.

Em São Paulo, no Capão Redondo, Jandira tem sessenta anos e é avó de seis. Criou três filhos sozinha depois que o marido morreu em acidente de trabalho em 2009 — sem seguro, processo que durou onze anos, acordo de R$ 42 mil. Hoje é diarista três vezes por semana e cuida dos netos nos outros dias para que as filhas possam trabalhar. A família funciona como uma cooperativa de sobrevivência onde o trabalho não remunerado de Jandira subsidia o remunerado das filhas. Nenhum economista vai colocar isso no PIB.

Em Porto Alegre, na Restinga, Simone tem trinta e oito anos, é professora de história na rede municipal e mãe de uma menina de nove. Em 2024, ficou oito meses sem reajuste enquanto o município renegociava o piso. Fez vaquinha para comprar material escolar da turma. No Dia das Mães deste ano, uma das mães dos alunos trouxe bolo para a sala. Simone não chorou na frente das crianças. Esperou o recreio.

Cinco retratos, cinco cidades, um mapa de maternidade negra que o Dia das Mães comercial não foi feito para mostrar. O que aparece nos anúncios é outra coisa: mães brancas em cozinhas claras recebendo flores. O que existe fora do anúncio é Vera, Ceiça, Dulce, Jandira e Simone — trabalhadoras do cuidado, da educação, da memória cultural, da sobrevivência de famílias inteiras. A maternidade negra no Brasil não é só condição afetiva: é regime de trabalho. Reconhecer isso não diminui o afeto — amplia o débito que o país acumula com essas mulheres e com os filhos que elas criam num Brasil que ainda mata filho negro na esquina.

Contexto

São Luís (Vera): Técnica de enfermagem, Coroadinho, plantão duplo no Dia das Mães. As trabalhadoras negras compõem 67% dos postos técnicos e auxiliares do SUS — 3,2 milhões de pessoas (CFN/Ipea, 2024).

Salvador (Ceiça): Baiana de acarajé, Barra. Ofício registrado como patrimônio imaterial pelo IPHAN (2005). Estimativa de 3.500 baianas ativas em Salvador; renda média de R$ 1.800/mês, sem previdência, sem FGTS.

Rio de Janeiro (Dulce): Doméstica, Manguinhos. Filho na UFRJ via Lei 12.711/2012 — cotas que aumentaram 37% a presença de negros nas federais entre 2013 e 2024 (MEC). Manguinhos: 4 mortes por bala perdida no 1.º trimestre de 2026.

São Paulo (Jandira): Avó-cuidadora, Capão Redondo. O trabalho não remunerado de mulheres negras equivale a 21% do PIB pelo método do custo de reposição (FGV Social, 2023) — invisível nas contas nacionais.

Porto Alegre (Simone): Professora, Restinga. Piso renegociado após 8 meses de defasagem em 2024. Restinga: 78% de população negra, menor IDEB da rede municipal — raça, renda e educação num único bairro.