Caderno: Brasil
Tipo: reportagem
Semana: 17
Data: domingo, 26 de abril de 2026

Amazônia — o quadrimestre do desmate e das comunidades quilombolas

Por: João Batista Baiano
Dados do INPE, fala dos líderes de Alcântara, Oriximiná e Trombetas. O que avança e o que retrocede.

Análise

Davi, 52 anos, liderança do quilombo de Boa Vista do Cuminã, em Oriximiná, acorda às quatro da manhã quando o rio está baixo o suficiente para cruzar de canoa até o ramal onde fica o pasto. O pasto não era pasto dois anos atrás — era floresta. Ele conhecia cada castanheira pelo porte. Agora o que resta são tocos e capim-colonião. O INPE registrou, no primeiro quadrimestre de 2026, 2.340 km² de desmatamento no arco sul da Amazônia — alta de 18% sobre o mesmo período de 2025. O dado preliminar, pelo sistema DETER, exclui ainda a pressão sobre áreas de várzea e territórios indígenas adjacentes. Uma fatia crescente pressiona territórios quilombolas.

O quadrimestre registrou avanço em frentes contraditórias. De um lado, o governo federal homologou a ampliação do território de Trombetas, no Pará — 247 mil hectares consolidados após vinte e dois anos de disputa, decreto assinado em fevereiro. De outro, o desmate ilegal nos arredores de Alcântara, no Maranhão, cresceu 34% segundo dados do MapBiomas cruzados pelo ISA, comprometendo a zona de amortecimento de uma das mais antigas comunidades quilombolas do país.

Benedito Macedo, coordenador da ARQMO, disse em reunião com o Ministério do Meio Ambiente em março que título fundiário sem fiscalização é papel. Que os fazendeiros sabem dos limites do território melhor que o próprio INCRA, porque financiam o georreferenciamento paralelo que antecede a grilagem. Que homens da comunidade que tentaram documentar o avanço em janeiro receberam ameaça por WhatsApp.

Alcântara sintetiza a contradição de outro modo. A base de lançamento espacial expandiu sua área de influência em 2025 e deslocou famílias quilombolas do Cajueiro e do Mamuna sem consulta prévia, como exige a Convenção 169 da OIT. Em 2026, o Ministério Público Federal abriu ação civil pública contra a União. A ação tramita. As famílias aguardam em área de realocação provisória há onze meses.

O desmate amazônico tem rosto masculino em dois sentidos opostos: o do grileiro que chega com motosserra, e o do homem quilombola que permanece como guardião de um território que o Estado reconhece no papel mas não defende na prática. Entre Trombetas e Alcântara, esses dois rostos se olham. O primeiro avança. O segundo resiste com associação comunitária, câmera de celular e quatro séculos de presença.

O Fundo Amazônia, recapitalizado com R$ 3,4 bilhões desde 2023, financiou 127 projetos de proteção no período — mas apenas 9 têm comunidades quilombolas como executoras diretas. A maior parte dos recursos vai para ONGs sem presença permanente nos territórios. Benedito, de Oriximiná, resume: quem conhece a floresta não é quem tem o dinheiro para protegê-la.

Contexto

Desmatamento Q1 2026: O INPE registrou 2.340 km² de supressão florestal na Amazônia Legal entre janeiro e abril — alta de 18% sobre 2025. Pará concentra 41% do total; Rondônia, 22%. Dado preliminar, sujeito a revisão pelo DETER.

Trombetas: Decreto de fevereiro de 2026 consolidou 247.146 hectares para comunidades quilombolas do Vale do Trombetas (PA). A ARQMO reúne 14 comunidades e 3.800 pessoas. Litígio encerrado após 22 anos, sem compensação pelos anos de restrição de uso.

Alcântara: O complexo quilombola de Alcântara reúne 159 comunidades e 23.000 pessoas (IBGE 2022). O MPF ajuizou ação civil pública em março de 2026 por violação da Convenção 169/OIT. O caso corre na 1ª Vara Federal do Maranhão.

Fundo Amazônia: R$ 3,4 bilhões capitalizados (2023–2026), com aportes da Noruega (68%) e Alemanha (22%). Dos 127 projetos aprovados, 9 têm territórios quilombolas como beneficiários e executores diretos. Os demais 118 são geridos por organizações externas (BNDES, março 2026).