Análise
Na quinta-feira antes do carnaval, Jorge, 58, segurança de escola pública na Liberdade, acordou às cinco da manhã para costurar os últimos búzios na camisa do bloco Malê Debalê. Faz isso há trinta anos. A camisa muda a cada vez — o gesto, nunca. É nesse gesto repetido, invisível para quem assiste pela TV Bahia, que começa qualquer conversa honesta sobre o que o Ilê Aiyê construiu em cinquenta anos e o que ainda está por construir.
O Ilê Aiyê completa meio século com um carnaval que não coube dentro de si mesmo. O bloco fundado em 1974 no Curuzu — quando tocar nas ruas de Salvador era proibido para negro — virou instituição cultural de alcance nacional. Mas cinquenta anos também produzem peso: o Ilê de 2026 negocia verba com a prefeitura, participa de editais do MinC, tem sede própria e escola de educação afro com 1.200 alunos. A pergunta que circula entre os homens do bloco não é de ingratidão — é de tensão produtiva: o que se perde quando a resistência vira patrimônio?
O trajeto da Liberdade ao Pelourinho no sábado gorduroso revelou três velocidades do mesmo carnaval. Na Liberdade, o cortejo do Muzenza saiu às 16h com 800 pessoas e chegou à Avenida Lima e Silva com quase três mil. Neto, 41, torneiro mecânico de Cajazeiras, voltou ao carnaval depois de cinco anos de ausência motivado pelo enredo do Muzenza sobre quilombolas do Sapé do Norte, no Espírito Santo. "Quando o enredo fala de alguém que eu conheço, eu volto", disse ao repórter.
No Curuzu, o Ilê apresentou pela primeira vez uma ala exclusiva de homens negros de 40 a 60 anos. A ala desfilou sem abadá à venda, sem patrocinador no peito, sem transmissão ao vivo. O coordenador cultural Antônio Nascimento, 63, descreveu os participantes como "os que fundaram e os filhos dos que fundaram". Esse carnaval não aparece no ranking de audiência, mas é o que mantém o Ilê como organismo vivo — não como performance de si mesmo.
No Pelourinho, o Olodum tocou o repertório dos cinquenta anos do Ilê. Sérgio, 27, estudante de história da UFBA, parou diante do painel de Abdias do Nascimento pintado na sede em 2023. "Ele foi pintado aqui porque os turistas precisam ver", disse, com ambivalência. "Mas nós também precisamos." A frase resume o dilema que o carnaval afro carrega desde que o estado começou a financiá-lo: presença pública tem custo simbólico.
O Ilê Aiyê de 2026 não é nostalgia nem espetáculo — é um organismo que carrega a contradição de qualquer instituição negra que sobreviveu tempo suficiente para ser reconhecida pelo estado que tentou apagá-la. Jorge, Neto, Sérgio: três gerações, três bairros, três relações com o mesmo carnaval. O tambor não resolve a contradição. Ele a sustenta, e isso já é muito.
Contexto
Ilê Aiyê — cinquenta anos: Fundado em 1974 no Curuzu, o Ilê foi o primeiro bloco afro do Brasil. Em 2026, o jubileu inclui exposição permanente no Museu Afro-Brasileiro e série documental em três episódios pela TV Brasil com apoio do MinC.
Circuitos e territórios: O carnaval de Salvador opera em circuitos separados: Barra-Ondina (trios elétricos), Pelourinho (blocos históricos) e os bairros periféricos — Liberdade, Curuzu, Cajazeiras — com menor cobertura midiática e maior densidade de pertencimento.
Financiamento público: Em 2025, a prefeitura destinou R$ 4,2 milhões para blocos afro via edital, contra R$ 38 milhões para blocos de trio. A disparidade foi objeto de audiência pública na Câmara em setembro de 2025, com presença de Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza e Malê Debalê.
Enredos 2026: O Ilê Aiyê apresentou "Cinquenta anos de axé, um século de luta". O Muzenza homenageou quilombolas do Sapé do Norte (ES). O Olodum levou ao Pelourinho o tema "Abdias — o teatro que recusou a invisibilidade".