Análise
No terraço de uma casa em Plataforma, bairro operário no subúrbio ferroviário de Salvador, três gerações da mesma família assistiram aos fogos explodirem sobre a Baía de Todos-os-Santos na virada de 2025 para 2026. Donizete, 71, ex-estivador, ficou em silêncio. Rogério, 44, motorista de aplicativo, filmava pelo celular. Cauã, 17, o neto, tinha os fones pendurados no pescoço como concessão ao protocolo familiar. Três homens negros num terraço de Salvador, com três versões distintas do que o país é — e do que pode ser.
Donizete aprendeu, ainda jovem, que política era coisa de quem tinha tempo para perder. Para ele, 2026 começa como 1986 terminou: promessas de normalidade que nunca chegaram ao subúrbio ferroviário. Rogério acreditou na mobilidade como questão de esforço. Comprou um carro no financiamento, virou motorista para pagá-lo, e agora negocia com um algoritmo que nunca senta à mesa. Cauã conhece o nome de Abdias do Nascimento porque aprendeu na escola — coisa que nenhum dos dois mais velhos teve — e aposta que o Brasil tem, pela primeira vez em décadas, uma arquitetura institucional que inclui sua cor.
O carnaval começa em fevereiro, e Salvador vai se apresentar ao mundo como sempre faz: como festa. Mas o que fica entre a virada e o arrastão é exatamente o que o carnaval cobre de glitter e ruído. A pergunta que nenhum dos três formulou em voz alta, mas que pairava como fumaça dos fogos: o Brasil que está sendo construído — para quem, exatamente?
O país fechou 2025 com indicadores contraditórios. O desemprego entre homens negros de 18 a 29 anos caiu 2,3 pontos percentuais em relação ao pico pandêmico, segundo o IBGE, mas a subocupação nessa faixa permanece em 34,1% — o dobro da média entre homens brancos da mesma idade. A mobilidade de Rogério é real e frágil ao mesmo tempo — sustentada por um carro que pode quebrar, por uma plataforma que pode mudar o algoritmo, por uma Selic que pode subir. O Brasil de 2026 ainda não decidiu o que fazer com essa ambiguidade.
Cauã vota pela primeira vez em outubro. Cresceu num país com Anielle Franco no Ministério da Igualdade Racial e com história afro-brasileira no currículo obrigatório. Mas também cresceu sabendo que o CEP é destino — que nascer em Plataforma, em Periperi ou em Fazenda Grande do Retiro reduz estatisticamente as chances de chegar à universidade, ao emprego formal, aos quarenta anos sem ficha policial. O otimismo dele é político, não ingênuo: uma aposta calculada numa conjuntura que pode mudar.
O que ficou, quando os fogos acabaram e Donizete pediu uma cadeira, foi a percepção de que o Brasil de 2026 não tem uma história. Tem três histórias no mesmo terraço, em tensão — e nenhuma delas cabe no resumo que o carnaval vai oferecer daqui a seis semanas.
Contexto
Subúrbio ferroviário de Salvador: Plataforma integra uma das regiões com menor IDH da capital baiana. A concentração de famílias negras data do início do século XX, quando trabalhadores portuários e ferroviários fixaram residência ao longo da linha. Três gerações no mesmo endereço é padrão recorrente — a mobilidade geográfica é baixa, a econômica, lenta.
Trabalho por plataforma: Segundo o IBGE (PNAD Contínua, 3º trimestre de 2025), homens negros de 30 a 49 anos respondem por 41% dos motoristas de aplicativo no Brasil — proporção três vezes maior que sua participação no emprego formal com carteira. O vínculo precário tornou-se principal porta de entrada ao mercado de trabalho nessa geração.
Eleições 2026: Presidenciais e legislativas estão marcadas para outubro. O eleitorado negro autodeclarado representa 56% do total nacional (TSE), mas a sub-representação no parlamento persiste — o número de parlamentares negros eleitos em 2022 permanece o pior da série histórica recente, dado retomado na entrada 2026-01-brasil-congresso-retoma desta semana.