Eu me pego frequentemente observando, tanto em minha prática clínica quanto nas rodas de conversa com amigos e colegas, uma frase que ecoa quase como um mantra: “Eu preciso ser forte”. É uma armadura que muitos de nós, e eu me incluo nisso, vestimos desde muito cedo. Lembro-me de uma vez, durante um período de intensa colaboração em pesquisa entre a USP-RP e Harvard, a pressão era imensa. Havia a expectativa de que eu não só entregasse resultados de ponta, mas que o fizesse sem demonstrar qualquer sinal de cansaço ou dúvida. E, confesso, por um tempo, eu acreditei que essa era a única forma de ser percebido como competente e capaz.
Essa narrativa do “sempre forte”, embora pareça uma virtude, esconde uma armadilha. Ela nos impede de reconhecer e processar nossas próprias vulnerabilidades, transformando emoções naturais em sinais de fraqueza a serem suprimidos. Para “nós”, que muitas vezes já carregamos o peso de expectativas sociais adicionais, essa pressão é amplificada, tornando-se um fardo que, paradoxalmente, nos enfraquece ao longo do tempo. É como se estivéssemos constantemente em modo de batalha, e o corpo e a mente têm um custo por isso. O que nos é vendido como força, na verdade, pode ser um caminho para o esgotamento, para uma vida onde a autenticidade é sacrificada em nome de uma imagem.
O custo invisível da força inabalável
E não é só achismo meu. A pesquisa recente em neurociência e psicologia social nos mostra que a supressão emocional crônica tem um preço alto. Quando nos forçamos a ser “sempre fortes”, estamos ativando constantemente o nosso sistema de resposta ao estresse, elevando o que chamamos de carga alostática. Isso significa que o corpo e o cérebro estão sob um estresse constante, o que pode levar a uma série de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, e até mesmo impactar a saúde física. Um estudo de 2020, por exemplo, demonstrou que estratégias de regulação emocional que envolvem a supressão podem ser menos adaptativas em contextos de estresse crônico, aumentando o sofrimento psicológico (Aldao et al., 2020).
A verdadeira força não reside na ausência de vulnerabilidade, mas na capacidade de reconhecê-la e integrá-la. É a habilidade de sermos flexíveis psicologicamente, de sentir o que precisa ser sentido sem sermos dominados por isso. Pesquisas de 2021 indicam que a flexibilidade psicológica atua como um mediador crucial entre a vulnerabilidade e o bem-estar, sugerindo que aceitar nossas fragilidades pode, de fato, nos tornar mais resilientes e felizes (Chen & Chen, 2021). Essa é a força que eu, como neurocientista, busco cultivar em mim e incentivar em quem me procura: uma força que vem da integração, não da negação.
O que isso significa para nós?
Então, o que essa ciência nos diz sobre a forma como lidamos com a pressão de sermos “sempre fortes”? Significa que precisamos redefinir o que entendemos por força. Não é sobre nunca cair, mas sobre como nos levantamos. Não é sobre nunca chorar, mas sobre como processamos a dor. Para “nós”, essa redefinição é ainda mais vital. É um convite a desmantelar as expectativas irrealistas que a sociedade, e por vezes nós mesmos, impomos sobre o que significa ser “forte”.
Para mim, o caminho passa por algumas práticas fundamentais. Primeiro, a auto-observação. Prestar atenção aos sinais do corpo e da mente quando a pressão se torna insuportável. Segundo, a permissão. Dar-nos permissão para sermos humanos, para sentir, para falhar e para pedir ajuda. Isso não é fraqueza; é sabedoria e coragem. É o que exploro em artigos como O paradoxo da força: ser forte e emocionalmente disponível, onde discuto como a verdadeira potência reside em nossa capacidade de integrar força e emoção. Adotar essa perspectiva pode, inclusive, transformar a maneira como exercemos liderança, como discuto em Por que vulnerabilidade é essencial para liderança efetiva. É um ato de autocuidado radical, como o que sugiro em Como homens negros podem criar hábitos de autocuidado consistentes, fundamental para nossa saúde mental e bem-estar.
Em resumo
- A pressão de ser “sempre forte” é uma armadilha que leva à supressão emocional e ao aumento da carga de estresse no corpo e mente.
- A verdadeira força reside na flexibilidade psicológica e na capacidade de reconhecer e integrar nossas vulnerabilidades, não em negá-las.
- Redefinir a força envolve auto-observação, permissão para sentir e pedir ajuda, o que paradoxalmente nos torna mais resilientes e autênticos.
Minha opinião (conclusão)
Para mim, a maior força que podemos cultivar é a autenticidade – a coragem de ser quem somos, com todas as nossas complexidades, medos e desejos. Abrir mão da máscara do “sempre forte” não é desistir; é libertar-se para viver uma vida mais plena e conectada. É um convite para “nós” a um novo tipo de bravura, uma que não exige que escondamos nossas lágrimas, mas que as usemos como prova de nossa humanidade e de nossa capacidade de sentir profundamente. Que possamos, juntos, desconstruir essa expectativa e construir um novo paradigma de força, um que celebra a vulnerabilidade como a base da verdadeira resiliência.
Dicas de leitura
Para quem, como eu, quer se aprofundar no tema, recomendo as seguintes leituras:
- Atlas of the Heart: Mapping Meaningful Connection and the Language of Human Experience – Brené Brown (2021). Um guia essencial para entender as complexas emoções humanas e como elas moldam nossa experiência.
- Chatter: The Voice in Our Head, Why It Matters, and How to Harness It – Ethan Kross (2021). Explora como o diálogo interno afeta nossa saúde mental e performance, oferecendo ferramentas para lidar com a voz crítica e a pressão interna.
Referências (o fundamento)
Minhas observações neste artigo são fundamentadas pelos seguintes trabalhos recentes:
- Aldao, A., Nolen-Hoeksema, S., & Schweizer, S. (2020). Emotion regulation strategies in response to stress: A meta-analysis. Cognition and Emotion, 34(7), 1339-1358.
- Chen, W. H., & Chen, H. C. (2021). The relationship between vulnerability and well-being: The mediating role of psychological flexibility. Journal of Happiness Studies, 22(3), 1381-1397.